Atualizado em: 17 de fevereiro de 2020

Quem cuida da sua saúde financeira? A melhor resposta é: você mesma. Pense bem. Está nos 40-50 anos? Dá tempo de começar a juntar dinheiro e investir nos sonhos de sua vida.

Nos 40-50 anos, geralmente a vida dá uma mudada. Você está preparada, financeiramente, para suportar as transformações e investir em novos projetos de vida?

Muitas mulheres estão aprendendo a juntar dinheiro cuidando pessoalmente da sua saúde financeira. A professora de Direito na FEA/RP – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto, Luciana Romano Morilas, descobriu como ser independente financeiramente bem cedo mas acredita que sempre é tempo de começar a cuidar das próprias finanças. Veja o que ela aprendeu.

Professora de Direito Luciana Romano Morilas.

Qual a sua relação com a carreira e com o dinheiro?

Eu venho de uma família de poucas posses. Nunca passei fome, mas sempre contei tostões. Quando eu tinha 13 anos, meu pai faleceu. Minha mãe nunca tinha trabalhado fora de casa. Ficamos em uma situação bem difícil, e o caminho foi colocar cada entrada e cada saída num caderninho.

Minha mãe conseguiu um emprego e logo eu também fui trabalhar. Por sorte, tínhamos conseguido quitar o financiamento da casa –– onde minha mãe mora até hoje –– meses antes de meu pai morrer. Naquele momento, tudo o que entrava era para nos manter. Não sobrava nada para investimento.

E eu decidi enfiar a cabeça nos estudos e no trabalho, como uma forma de fugir dos problemas. Comecei a trabalhar aos 16 anos: eu dava aulas de inglês como monitora da escola onde eu estudava e pagava meus estudos mais avançados. Fiz isso também com a faculdade de direito.

Meu primeiro carro aos 26 anos

Quando ingressei na universidade, fui conseguindo empregos cada vez melhores. Aos 26 anos, comprei o meu primeiro carro, financiado. Eu tinha organizado o financiamento de forma que eu conseguisse pagar 2 parcelas por mês e foi a melhor coisa que eu fiz, porque meses depois a faculdade em que eu trabalhava decidiu que passaria a pagar apenas 50% dos salários dos professores. Foi terrível sofrer uma queda de 50% dos meus rendimentos, mas consegui sair dessa situação sem maiores problemas. A estratégia de fazer um financiamento mais longo, mas cujas parcelas custariam a metade do que eu poderia pagar, foi supercriticada, porque eu pagaria mais juros. Mas eu não fiquei numa situação tão ruim quanto a de meus colegas, que tinham comprometido parcelas bem mais altas de seus salários. Até hoje essa faculdade não pagou o que me deve. É bem triste ter o valor de um bom apartamento nas mãos de pessoas que, até hoje, se beneficiam do meu dinheiro.

Meu primeiro “zero”

E fui conseguindo começar a guardar alguma coisa, mas sempre para comprar um carro melhor ou para uma viagem. Com relação ao carro, como não entendo muito de mecânica, fico desconfiada de que estou sendo enganada. Com isso, escolho empregar dinheiro em um carro zero, reduzindo minhas idas ao mecânico, o estresse com um eventual conserto mal realizado, os dias com o carro parado. Então, sempre fui financiando todos os carros que tive até dezembro de 2019 quando, pela primeira vez, consegui comprar um carro à vista, sem financiamento. Estou muito feliz com isso. Só consegui o que considero uma façanha após uma organização com dicas de um dos meus ex-alunos, que fez o curso de Economia e Controladoria.

Dar aulas em uma faculdade de negócios mudou muito minha forma de pensar. Hoje, lido com o dinheiro de uma forma diferente.

Na fase dos 40-50 anos, geralmente a vida dá suas viradas e muitas mulheres precisam começar a enfrentar sua condição financeira. O que dizer a elas? 

Acho interessante essa crise do que se chama “meia-idade”. É um momento em que as pessoas começam a pensar que viveram mais até agora do que vão viver daqui para a frente. E acabam descobrindo que sempre viveram para trabalhar, para se formar, para suas famílias e muito pouco para si mesmas ou para seu próprio futuro. Nesta fase, acabam achando que passou muito tempo, e bate certo desespero. Já não temos a mesma jovialidade de antes, o corpo já não aguenta o mesmo ritmo. Parece que está na hora de desacelerar. Mas eu acho que isso é outro tabu social que precisamos enfrentar. Essa situação precisa ser encarada de uma outra forma.

Aos 40-50 anos dá tempo para começar?

Uma mulher nos seus 40-50 anos ainda tem muito a viver e pode construir muitas coisas novas. Não é o momento de parar, muito pelo contrário. É o momento de se reinventar. Se até esse momento a vida foi levada meio que sem pensar, agora a maturidade já dá condições para encarar tudo com mais calma e controle da situação.

Aposentar não é parar

Muitas pessoas sonham em se aposentar para, então, viver. Essa pessoa precisa parar de se iludir, porque isso já não existe mais. Precisamos aprender com as gerações mais novas que a vida é agora. Meu pai morreu aos 43 e ele estava esperando a aposentadoria para então fazer umas viagens ou algumas extravagâncias. Não deu tempo. Aos 40-50 ainda dá tempo de mudar o jeito de viver e viver o agora. Não se trata de viver de forma irresponsável, viver só o presente, uma ode à “vida loka”. É viver melhor o que temos hoje. É curtir seu emprego, mesmo que não seja o emprego dos seus sonhos. E, se você avaliar que ainda quer o emprego dos seus sonhos, ainda dá tempo sim de correr atrás dele.

Dinheiro na mão

 É importante a pessoa se planejar com o dinheiro que tem na mão hoje, com o que o emprego de hoje fornece. Se tiver controle, é possível. É chover no molhado o conselho de gastar menos do que se ganha e sempre poupar um pouco. É o que todos dizem e é o óbvio a se fazer.

O que funcionou pra mim

1 – Anotar tudo

O que funcionou para mim foi anotar –– escrever mesmo, à mão, num caderninho –– os projetos que desejo realizar. O simples fato de escrever já torna o sonho mais concreto. E o plano pode ser para 1, dois ou cinco anos.

2 – O que fazer para chegar lá

Colocado o projeto no papel, é bom colocar também o que vai ser feito para chegar até lá. E pode ser deixar de tomar um cafezinho todo dia.

3 – Fugir de tentações

Mas, para as mulheres, a dica é mesmo fugir da “tentação da blusinha nova”. A gente nunca precisa da blusinha, mas a gente quer. É parar de seguir as lojas no Instagram, é reduzir o passeio no shopping. Troca isso por um passeio no parque ou por curtir fotos de cachorrinho. E anotar o tanto que se deixou de gastar faz uma grande diferença, porque fica concreto o valor que você não gastou (porque economizar é reduzir algum gasto inevitável) em algo que você provavelmente não precisava. Trocar roupas com as amigas pode ser uma saída pra ter uma roupa nova, mas de custo zero. Enfim, a dica é: controle-se para alcançar uma meta maior.

4 – Procurar ajuda especializada

Com essa sobra na mão, mesmo que sejam 100 reais, é bom conseguir uma ajuda especializada, mas tem que ser com uma pessoa de confiança. O gerente do seu banco não é uma pessoa de confiança, e não é por maldade, é porque, para sua própria sobrevivência, ele precisa vender os produtos do banco. Uma amiga que está mais adiante nisso te indica um produto financeiro e você vai aprendendo. Tem como estudar finanças também. Há sites especializados, que oferecem cursos interessantes. Mas, de novo, cabe cautela para não cair em uma furada. Nunca é fácil. Se parecer fácil, foge que é cilada.

Qual a sua dica para quem conseguiu fazer uma poupança nesse momento da economia no Brasil em que os juros caíram mais?

A melhor coisa a se fazer, para quem já tem algum dinheiro acumulado, é não deixar na poupança. Existem hoje bancos digitais que são muito seguros e de boa reputação e que cobram taxas administrativas zero ou muito baixas.

E lembre-se: o seu dinheiro nas mãos do banco já é o pagamento pelo serviço prestado. Você não precisa pagar ainda mais uma taxa para o banco manter seu dinheiro. Uma dica valiosa: a Resolução 3.919 de 2010 do Banco Central determina que os bancos são obrigados a oferecer uma conta corrente, normalmente conhecida como “conta essencial”, que conta com vários serviços inclusos totalmente gratuita, sem qualquer custo para o cliente. Eu mesma precisei discutir com o banco para ter acesso a essa conta, e o banco me dizia que eu teria menos benefícios. Para você ter uma ideia, eu pagava uma tarifa para ter menos serviços do que eu teria com a conta essencial. A economia nas taxas bancárias já faz uma diferença no final do ano. O banco queria incluir uma tarifa de 60 reais mensais na minha conta. Isso soma 720 reais no final do ano. É ou não é um bom presente?

Outra coisa: nunca ter dinheiro na carteira. A gente gasta muito com dinheiro vivo na mão. E gastamos em bobagens. Ter que passar o cartão já segura um pouco os gastos.

O valor que está hoje na conta corrente ou na poupança tem que ir para uma corretora financeira independente. Há várias no mercado que são muito sólidas e gratuitas. Elas mesmas oferecem treinamentos e você faz o seu investimento por conta própria. Sugiro fazer investimentos conservadores, para não correr riscos. Pode ser que depois dê pra arriscar mais, em mercado de renda variável.

Uma coisa que é importante: sempre disseram que mulher precisa saber cozinhar ou cuidar da casa. E a gente se dedicou a isso. A gente cozinha alguma coisa, começa com o básico. E um dia a gente arrisca num jantar mais sofisticado. Com as finanças é a mesma coisa. A diferença é que nunca ninguém disse que a gente tem que aprender a cuidar das próprias contas, mas que alguém faria isso por nós. Não, ninguém vai fazer.

“É você mesma quem tem que cuidar da sua saúde financeira, independente da idade que tenha. Então, tem que começar a aprender. Isso implica estudo e dedicação, como você fez para aprender a cozinhar. E dá tempo de fazer isso aos 40-50, sem dúvida. Se você viver até os 80, são mais 30 anos para juntar dinheiro e gastar em viagens e satisfazendo suas vontades.

Qual a sua filosofia de vida?

Como perdi meu pai bastante cedo, percebi que preciso aproveitar a vida, o que significa valorizar as pessoas mais que os bens materiais. Então, eu paro tudo para tomar um café com um amigo que me chama pedindo uma ajuda. Eu valorizo cada uma das minhas refeições e tento realizar todas elas com alguém querido.

Pular refeição para trabalhar? Jamais! Eu me dedico de corpo e alma ao meu trabalho, mas jamais deixo de fazer uma refeição, de dormir ou de encontrar um amigo por causa dele. O trabalho deve estar ao meu favor e não o oposto. Eu tento um equilíbrio entre viver de forma regrada (o que inclui dormir 8 horas por noite, fazer 3 refeições no dia e 2 lanches nos intervalos, evitar frituras e gorduras –– ainda não consegui me livrar da carne vermelha e do açúcar ––, fazer exercícios físicos, não beber ou fumar, gastar menos do que ganho) e viver os momentos que a vida me proporciona.

Talvez minha filosofia se resuma em viver o momento presente de forma a garantir a existência de bons momentos futuros.

Obrigada pelos conselhos, professora Luciana. morilas@fearp.usp.br

Foto de capa: Pixabay.

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