Atualizado em: 15 de fevereiro de 2023

No livro “Viver bem e Morrer bem”, a psicóloga e escritora Bel Cesar fala sobre como superar o luto e traumas, de acordo com a Experiência Somática e o budismo tibetano

Por Mirtes Wiermann

Bel Cesar é autora de nove livros, psicóloga clínica e estudiosa do budismo tibetano há mais de 35 anos.

No livro “Viver Bem e Morrer Bem – agora e sempre: como superar, traumas, lutos e lidar com o processo da morte”, Editora Gaia, é resultado de mais de 10 anos de estudos de Bem Cesar e também experiências de luto.

Uma de suas experiências marcantes foi em 2020 com a morte do Lama Gangchen Rinpoche, por Covid-19, aos 78 anos, na Itália, onde ela mora desde 2020. Foi ele quem reconheceu em Michel Calmanowitz, filho de Bel, e hoje chamado como Lama Michel ( lamamichel ), a reencarnação de um importante mestre tibetano, quando o brasileiro tinha apenas 5 anos.

Bel Cesar: um livro sobre o luto

Na pandemia ainda, Bel Cesar percebeu que o luto, que vinha estudando há mais de 10 anos, estava no centro das atenções. E assim nasceu o livro de Bel Cesar sobre como superar traumas, lutos e lidar com o processo da morte.

Livro de Bel Cesar sobre superação de traumas e o luto.

 “Meu mestre do budismo tibetano Lama Gangchen Rinpoche nos dizia que o primeiro passo para ter paz interior é o de reconhecer nossos estados naturais de bem-estar”


Para você o que é Viver bem e Morrer bem?

Viver bem não quer dizer ter apenas prazer e relaxamento, mas sim significa saber lidar com os estados de vulnerabilidade diante da vida e do processo da morte. Vivemos e morremos bem na medida em que nos tornamos pessoas autênticas, coerentes com nossos valores mentais, emocionais e espirituais.

Viver e Morrer bem é possível na medida em que cultivamos uma mente estável e flexível ao mesmo tempo e não nos deixamos pressionar pelo futuro.

Meu mestre do budismo tibetano Lama Gangchen Rinpoche nos dizia que o primeiro passo para ter paz interior é o de reconhecer nossos estados naturais de bem-estar. Afinal, se não estivermos habituados a nos sentir bem, nossa mente insatisfeita voltará sempre a nos dominar. Por isso, o bem-estar requer autorregulação emocional: a capacidade de harmonizar os estados de medo, dúvida, raiva e irritação diante das vicissitudes da vida. É um treino que aos poucos se torna um bom hábito.

Como o budismo tibetano ajuda as pessoas em luto?

A filosofia budista quando aplicada ao cotidiano nos leva a reconhecer que a natureza de todos os fenômenos é impermanente. Mas isso não quer dizer que um dia tudo irá deixar de existir, e, sim, que a realidade está em constante transformação. Aliás ela só pode se transformar porque está em contato com tudo e todos. Nesse sentido, não há um começo nem um fim. A natureza interdependente da realidade reconhece que tudo está constantemente morrendo e renascendo, num contínuo processo de transformação.

Durante o processo de luto aprendemos a nos adaptar à nova realidade na medida em que nos abrirmos para sentir as mensagens que a dor da perda nos envia. A cura psicológica se dá pela disponibilidade de explorar a si mesmo. Não se trata de explorar a dor intelectualmente, mas de abrir-se diante dela. Atravessá-la. Não importa o quanto sabemos sobre nós mesmos, mas sim como nos comportamos frente aquilo que sabemos. A função da tristeza é de nos levar ao desprendimento de uma visão da realidade fixa e imutável.

Meu mestre Lama Gangchen Rinpoche nos dizia que a vida está 100% em nossas mãos, pois apesar de não podermos controlar os fatos, podemos encará-los com sabedoria.

Se durante o processo do luto nos encontramos desorientados e perdidos, diante de uma experiência que nada mais faz sentido, será o significado que daremos ao nosso sentir que nos irá ajudar a recuperar um novo senso de direção. Não basta um significado mental, racional, é preciso que ele seja suficientemente verdadeiro, autêntico, sincronizado com nossos anseios a ponto de nos dar um sentido: uma direção.

página do livro Bel Cesar e o luto
Aquarela, pintada por Bel Cesar, que ilustra o livro.

“Em nossa sociedade ocidental temos uma visão idealizada da morte contaminada pela esperança e pelo medo, baseada no imaginário subjetivo criado a partir de construções culturais e religiosas”

As religiões falam da morte mas porque as pessoas não gostam de falar sobre ela?

Porque em nossa sociedade ocidental temos uma visão idealizada da morte contaminada pela esperança e pelo medo, baseada no imaginário subjetivo criado a partir de construções culturais e religiosas. Desta forma, nos sentimos incapazes de lidar com o desconhecido.

Sem uma experiência direta com o processo de morrer, seja o de acompanhar aqueles que estão morrendo ou de encarar os desafios de nossa própria finitude, não amadurecemos a confiança de que podemos aprender a lidar positivamente com a finitude.

Contemplar a morte acelera nosso processo de lidar com as transformações da vida. A morte coloca a vida em perspectiva quando encarada como uma real oportunidade para ressaltar nossos valores e prioridades.

Por isso, na medicina baseada em princípios budistas, a doença pode ser vista como uma bênção, pois ela nos ajuda a compreender mais rapidamente o que realmente é importante para nós.

Como nos prepararmos para a nossa própria finitude?

O principal não é aceitar a morte, mas aceitar a si mesmo, aceitar o que quer que esteja lhe acontecendo com abertura e auto compaixão.

 A monja budista Pema Chödrön nos inspira a aceitar a morte deixando de lutar frente a alguma coisa que não acontece como gostaríamos. Ela diz que aceitar a morte na vida diária significa ser capaz de relaxar na insegurança, naquilo que não vai bem, pois só quando abrimos mão de qualquer expectativa é que podemos, de fato, relaxar no momento presente.

Pema Chödrön nos fala: “A esperança e o medo advém de sentirmos que nos falta algo, de um sentimento de carência. Não conseguimos simplesmente relaxar em nós mesmos. Nos agarramos à esperança e ela nos rouba o momento presente. Achamos que talvez outra pessoa saiba o que está acontecendo, que há algo faltando em nós e, portanto, há algo faltando em nosso mundo.” … “Desistir da esperança é um estímulo a ficar do seu próprio lado, a fazer amizade consigo mesmo, a não fugir e a voltar ao essencial, não importa o que aconteça.”

Quando aprendemos a nos auto sustentar reconhecemos que podemos lidar até mesmo com a nossa própria morte.

Como lidar com a perda de uma pessoa querida?

O luto é um processo desencadeado por uma perda, não necessariamente por uma morte. Ele é complexo. Requer atenção não apenas à dor emocional, como também às necessidades físicas, espirituais e sócio-culturais. Mas, acima de tudo, é um processo individual: cada um tem o seu modo de lidar com os desafios da vida. Emergimos do luto quando nos sentimos capazes de, mais uma vez, escolher a vida.

Metaforicamente, comparo o processo do luto à frustração de um sonho que não pudemos realizar. Imagine que sempre quis ir ver as pirâmides do Egito. Por anos seguidos, estudou tudo o que podia sobre elas. Finalmente chega o momento de viajar para lá. Mas, acontece a pandemia da Covid-19 e todos os países fecham suas fronteiras. Não é uma questão pessoal, é uma realidade para todos. O que fazer diante da dor da frustração de não poder viver algo que tínhamos nos programado?

Uma parte da energia acumulada para essa viagem poderá ser direcionada para outros fins. Por exemplo, podemos dedicar a energia acumulada à nossa paixão pelas pirâmides, compartilhando nosso interesse e conhecimento com outras pessoas. Mas, a outra parte dessa energia precisará ser simplesmente consumida. Sentida e ressentida. Esse é o ponto que diferencia o tempo do processo de luto de uma pessoa para outra.

Conhecer o que nos dá e o que nos tira a força é primordial. A dor que nos tira a força é aquela baseada no excesso de interpretações, dúvidas e suposições. Se cairmos em pensamentos obsessivos sobre o que poderíamos ter dito ou feito não iremos curar a nossa dor.

Quanta dor estamos dispostos a sentir? Essa é uma pergunta que temos que nos fazer quase diariamente quando vivemos um luto. Não há como negar a dor, mas podemos lidar com ela por doses. Podemos nos abrir para grandes dores, começando por aceitar as menores.

Bel Cesar e o seu filho o Lama Michel
Bel Cesar e seu filho, o Lama Michel.

“Quem conhece Lama Michel sabe como ele é um exemplo vivo de suas palavras. São sempre inspiradoras. Ele continuamente me ajuda a ver de forma mais ampla e ao mesmo tempo mais profunda”

Como você vive a experiência de ser mãe do Lama Michel?

Os ensinamentos do budismo tibetano que aprendi com Lama Gangchen Rinpoche – seja formalmente ou no convívio direto – são a minha base de formação emocional, profissional e espiritual. Por isso, sinto sua presença constante mesmo após sua morte.

Compartilhar o que aprendi com Rinpoche sempre fez parte de meus objetivos de vida, mas agora tornou-se uma necessidade ainda maior, pois ao fazê-lo mantenho vivo tudo que aprendi com ele. Por isso, este novo livro Viver bem e Morrer bem fez parte de meu processo de luto diante de sua morte por covid-19 em março de 2020.

Quem conhece Lama Michel sabe como ele é um exemplo vivo de suas palavras. São sempre inspiradoras. Ele continuamente me ajuda a ver de forma mais ampla e ao mesmo tempo mais profunda.

Sou tão grata por isso! Decidi, junto com meu marido Peter Webb, a viver no Albagnano Healing Meditation Centre, na Itália, para estar mais perto dele após o falecimento de nosso mestre. Sinto-me segura e feliz de estar ao seu lado. Para quem quiser saber mais sobre a nossa história, escrevi um capítulo no livro “Aprendi com meu filho: 43 pais admiráveis contam as lições que receberam de seus filhos”, por Miriam Sanger e Angela Senra.

Mais sobre a Bel Cesar

Imagem principal: Divulgação

Livro de Bel Cesar e um olhar sobre o luto:

Livro Viver Bem e Morrer Bem de Bel Cesar

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