Atualizado em: 14 de julho de 2020

Mulheres estão no centro de novas mudanças sociais. Com elas, a maturidade está ganhando novos significados. A jornalista Marcia Neder testemunhou décadas de transformações e escreveu sobre essa nova maturidade.   

Por: Mirtes Wiermann

Lendo o livro “A revolução das 7 mulheres”, da jornalista Marcia Neder, senti um estalo: eu não estava só. Havia milhares de mulheres como eu: meio desnorteadas por chegar aos 50, aos 60 anos, e perceber que tudo era novo, novamente!

Eu não estava preparada para deixar de viver, para tornar-me invisível, como acontece com a grande maioria das mulheres que chegam à maturidade. Como aconteceu com minha mãe e a minha avó.

Em seu livro, Marcia Neder detectou que as mulheres estão reinventando a maturidade. E, que viver os novos 50 anos não precisa ser como antes.

Na juventude, elas ajudaram a mudar padrões. Hoje, as mulheres 50+, 60+ estão continuando essa tarefa.

Conversei com a Marcia, essa jornalista que dirigiu revistas icônicas, como a Cláudia e a Nova, e que, durante décadas, que acompanhou as jovens que hoje têm 60.  Em 2015, Marcia Neder lançou o seu livro “A revolução das 7 mulheres” e continuou me cativando.

Marcia Neder: “As mulheres 50+, 60+ estão reinventando a maturidade.”

A nova maturidade: quem são as novas mulheres 50+, 60+

Para o seu livro, Marcia Neder entrevistou mulheres que viveram as principais mudanças a partir dos anos 60, as baby boomers, nascidas entre 1946 e 1964. Hoje, elas têm entre 50 e 70 anos de idade. Mulheres que lutaram e assumiram o seu lugar na sociedade e envelheceram com um certo inconformismo com o mundo que não acompanhou os seus passos.

Uma nova revolução, a da maturidade, está em andamento. E, de novo, essas mulheres são protagonistas.

Nesse livro, você expõe a invisibilidade da mulher de 50 anos. Mas, parece que já começou um movimento de valorização da mulher madura, especialmente na indústria da beleza. Isso é apenas o marketing descobrindo novos mercados consumidores ou realmente os valores estão mudando?

Eu tenho visto esse assunto sendo mais discutido, hoje em dia. Mas ainda está longe de chegarmos a uma situação mais justa. Ainda há muito preconceito contra a velhice, continuamos invisíveis, perdura uma miopia das empresas em oferecer produtos e serviços para as pessoas maduras que não sejam para a falta de saúde, e o marketing reflete esse equívoco. Mudanças de comportamento na sociedade são muito lentas e com idas e vindas. A luta continua. 

Hoje, o que você mudaria em seu livro “A Revolução das 7 Mulheres”, lançado há poucos anos?

Na verdade, o livro foi lançado há cinco anos, em 2015. Mas nada mudou. Continua atualíssimo. Eu e minhas entrevistadas estamos apenas um pouco mais velhas. Mas elas continuam mulheres fantásticas, atuantes, produtivas e lutando para fazer mais essa revolução na sociedade. Se fosse reeditar o livro, faria uma pesquisa mais detalhada sobre o que mudou realmente nas empresas nesse período. Não sei se foi muito.

Como os jovens, acostumados a serem protagonistas, estão reagindo às mudanças, lentas mas que estão acontecendo?

Os jovens estão reagindo muito bem. Encontro nos jovens que assistem as minhas palestras uma alegria muito grande em ver que a vida não acaba aos 50. A minha geração sempre ouviu que a velhice era uma ruína. Tivemos que descobrir que isso não era verdade só quando chegamos lá. Os jovens hoje convivem com novos e inspiradores exemplos. Isso muda tudo!

Como eu conto no livro, ouvi da minha filha: “Eu quero ser você aos 60”. Eu nunca disse isso para minha mãe.

Em 2020, faz 60 anos que a pílula anticoncepcional foi lançada, o que foi uma revolução de comportamento no mundo. Você acredita que a pílula abriu as portas para a emancipação da mulher?

A pílula foi o mais importante fator de emancipação da mulher. Finalmente, ela podia ser dona do próprio corpo. Quando entrou no mercado de trabalho, passou a ser dona do próprio dinheiro. Esses dois fatores somados mudaram a história da mulher e da sociedade. Pelo menos nos países onde elas têm essa liberdade de opção.

No Brasil, é grande o preconceito de idade, contra homens e mulheres. Para as mulheres que chegam aos 50 anos a carreira fica mais difícil?

Fica. Sem dúvida. E não só para as mulheres. Há um preconceito muito grande em relação à idade no mercado de trabalho, sobretudo nas grandes corporações. Há uma importante mudança no discurso dos gestores que já dá para ser ouvido. Mas a verdade é que há ainda um fosso entre o discurso e a prática.

Hoje em dia a violência contra a mulher em todo o mundo nos lembra que ainda falta muita coisa para mudar. Quais deveriam ser as próximas revoluções da mulher?

A questão da violência contra as mulheres é uma chaga aberta na sociedade. Muito, muito, muito ainda a ser feito. E a revolução ainda tem vários outros itens de luta, como as diferenças salariais na mesma função, que são escandalosas, a desigualdade de oportunidades que ainda é uma questão premente, o teto de vidro que ainda existe para as mulheres chegarem ao topo das empresas, sem falar na questão dos Conselhos das empresas que ainda são verdadeiros Clubes do Bolinha.

A mulher negra tem seus próprios desafios?

Enormes. O preconceito racial no Brasil é vergonhoso. A mulher negra sofre todas as dificuldades das mulheres brancas multiplicadas por mil. Muita luta pela frente para todas as mulheres que acham que essa questão é injusta e inaceitável.

“Por incrível que pareça, depois de 60 anos da Revolução Feminina, ainda temos que falar em violência, igualdade de oportunidades, preconceitos de toda ordem”.

Se, hoje, você fosse a editora de uma revista como a Claudia, quais seriam os temas que abordaria para as atuais jovens mulheres?

Por incrível que pareça, depois de 60 anos da Revolução Feminina, eles pouco mudaram na essência. Ainda temos que falar em violência, igualdade de oportunidades, preconceitos de toda ordem. Para mim, ainda ter que defender o Feminismo tão atacado é surreal! O que as mulheres conquistaram até hoje foi porque o Feminismo não desistiu nunca. Ter que explicar ainda hoje que o Feminismo não é contra os homens dá uma canseira. Eu tenho 68 anos. E tenho muito orgulho de ser uma feminista de primeira hora. Estamos falando de igualdade de direitos e de oportunidades. Quem pode ser contra isso???

Como mãe, quais os melhores conselhos para os filhos, meninos e meninas?

A primeira coisa que devemos ensinar aos nossos filhos é que homens e mulheres são equivalentes. E a mãe é fundamental na criação de homens que não se acham donos das mulheres. Além disso, ensinaria aos filhos coisas iguais: que sejam independentes, respeitosos e éticos. Que tenham compaixão e sejam gentis. Como o mundo anda precisando de gentileza!

“A idade traz uma liberdade que os jovens não têm ideia que existe. Faço só aquilo que eu quero. Não devo nada a ninguém. Como é bom!”

Como foi para você passar dos 50 anos? Como foi a sua transição? Quais foram os piores e melhores momentos de entrar na maturidade?

Foi acontecendo, não sei precisar o momento. Como fui mãe aos 40, essa sensação demorou a chegar porque a maternidade é uma fonte de energia e uma fortaleza. Mas a maturidade chega, não adianta ignorar. E a mudança, para mim, foi mais física que mental. O corpo sente. Não tem mais o vigor da juventude. Dá raiva às vezes ver que o corpo não acompanha a mente. Então, temos que nos cuidar muito. Mas tanta coisa boa vem com a maturidade. Se eu pudesse sintetizar em uma palavra, a idade traz uma liberdade que os jovens não têm ideia que existe. Faço só aquilo que eu quero. Não devo nada a ninguém. Como é bom!

Você está escrevendo um novo livro? Sobre o que vai ser? Tem data de lançamento?

Sim, já tenho outros livros em andamento, mas com temas completamente diferentes desse. Estou explorando outras possibilidades. A liberdade é assim!

Como você e as suas amigas estão vivendo a maturidade? Espero que essa conversa te dê inspiração para viver melhor esse novo momento da sua vida!

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